IFConnect > Visão do Autor > Resenha > Menos alemães e mais gregos: uma resenha do filme “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”

Antes de mais nada, caros leitores, fiquem tranquilos: evitarei ao máximo possível qualquer spoiller ao longo desta despretensiosa resenha do famigerado filme de Zack Snyder. E, caso sejam necessárias as informações relevantes à trama bombástica do filme, lançaremos mão dos recursos os mais óbvios para que os mais incautos (ou mesmo os ingênuos) não deem com os metafóricos burros n’água. Ou com os morcegos, quem sabe…

Dito isso, vale ressaltar aqui que não focarei os aspectos mais técnicos do filme: não tanto por uma questão de importância, mas de expertise – haja vista minhas especialidades estarem mais ligadas aos aspectos narrativos desta obra. A começar pelas personagens – e por que não começar de cara com a mais controversa de todas no filme, nosso polarizado amigo Alexander “Lex” Luthor (encarnado pelo excelente Jesse Eisenberg)?

Curiosamente, mesmo que desde os seus primeiros instantes de cena Luthor antagonize a figura heroica e (indevidamente, em sua opinião) idealizada do Super-Homem (protagonizado por Henry Cavill desde o último filme dedicado ao herói, de 2013), seu personagem se encaixa com uma perfeição lacrimejante no ideal nietzscheano do übermensch, que (para minha surpresa) recebe uma tradução mais próxima do alemão com o termo “além-homem”, ou “Além-do-humano”. A todo o instante, durante as quase três horas de filme (que, francamente, pesaram tanto quanto uma casquinha no parque num dia de verão, tão bem trabalhado é o deslanchar do enredo), nosso “além-homem” Luthor procura desacreditar e mesmo inverter os valores representados em sua contra-parte, o Super-Homem, e por ele disseminados ao longo de sua (controversa) atuação em escala mundial no último filme. Através de um desejo quase doentio de autossuperação frente aos traços semi-divinos de seu antagonista, o “além-homem” Luthor busca a todo instante superar a sua (suposta) nulidade através de seu “super” poder, um dos mais assustadores nesta nossa era da (des)informação: o conhecimento. Comparando-se inclusive a uma espécie de Prometeu moderno, que usa de seu conhecimento “para além do humano” em prol da evolução de seus filhos criados do barro, os homens. O “além-homem” Luthor também se utiliza de certas ideologias e medos culturais bem íntimos da cultura histórica norte-americana para subverter o ideal (supostamente) representado pela persona de Kal-El (ou Clark Kent, ou ainda Super-Man, em sua forma não-traduzida do inglês) e criar novos ideais que antagonizem com este que representa, para nosso “além-homem” Luthor, um eterno lembrete para tudo o que a humanidade possuiria de “aquém-homem”, posto o Super-Homem enquanto figura heroica seja, faça e represente muito daquilo a que a humanidade aspira desde priscas eras, e jamais conseguiu conquistar integralmente – a natureza alienígena do personagem favorece ainda mais este mix de xenofobia e prepotência que o “além-homem” Luthor não só defende, como busca inspirar em outros personagens ao longo do filme.

Contudo, como disse no título deste texto, estou aqui para a defesa dos gregos sobre os alemães. Deixemos o “além-homem” Luthor e sua jornada nietzscheana para destruir falsas divindades estabelecidas pela Lei e pela Ordem, e partamos para o Cavaleiro Negro de Gotham, Batman (e sua persona non grata, Bruce Wayne) que remete como ninguém ao mito platônico das sombras na caverna (além de ter tudo a ver com nosso homem-morcego, não?). Apesar de seus símbolos e ícones estarem sempre relacionados à noite, à escuridão e ao sombrio, a figura de Batman enquanto um herói representa aquele indivíduo solitário da alegoria que Platão desenvolveu em vários de seus textos, que – tendo escapado de uma suposta realidade limitada por vestígios sensoriais dos mais reduzidos – busca resgatar os seus semelhantes após ter os “olhos abertos” para a grande realidade do Mundo e do Real, mas é comumente tido como louco ou doente por seus antigos semelhantes (e, às vezes, até mesmo antagonizado por eles). Não é à toa que sempre se associe ao Batman a figura do detetive: mesmo não tendo ultrapassado todos os pensamentos e crenças limitantes de sua própria caverna (ao menos, não até o confronto derradeiro com o último filho de Krypton, o Super-Homem), ele se comporta como um agente da Verdade e da Iluminação, desvendando os mistérios da trama, reunindo evidências que apontem para a “real ameaça” da história, e provendo os meios para que certo grupo de outros “supers” se torne uma realidade num futuro não muito distante.

E o Homem de Aço? Francamente, deixei-o na lanterna deste texto por ter sido um dos personagens que mais me impressionou e inspirou em todo o filme. Retomando a receita deixada por Aristóteles a respeito do herói trágico, tanto Clark Kent quanto o Super-Homem são (eventualmente) vitimados por seu orgulho (ou zelo excessivo, em certas cenas); sua (ALERTA DE SPOILER VOCÊ FOI AVISADO!) queda se dá por certo erro de julgamento cometido por ele próprio (ainda que não tenha sido o único a realizá-lo); não só compreende, mas abraça o desfecho fatal que o aguarda; além de vários outros itens da lista, cumpridos exemplarmente pelo herói ao longo de toda a trama. E, contudo, para fecharmos aqui o ciclo e retomarmos o fracasso nietzscheano de Luthor no filme (não só em derrubar a figura icônica do Super-Homem, como a endossa e fortalece através de seus atos vilanescos e malsucedidos), segundo as várias metáforas e comparações que o próprio Luthor estabeleceu para com seu eterno rival, há que se admirar e se emocionar com a maestria artística utilizada para se estabelecer a figura do Super-Homem (em oposição ao “Além-Homem” de Luthor) enquanto um herói clássico, que abre mão da própria vida para garantir a sobrevivência e segurança daqueles que lhe são caros…

Eu disse que faríamos a defesa dos gregos em oposição aos alemães aqui, mas se você (assim como eu) se emocionou com aqueles últimos vinte e tantos minutos do filme, façamos um retorno mais oportuno ainda à trajetória heroica destas personagens no filme: nem alemães ou gregos, mas judeus. Por que negar? Luthor estava certo todo o tempo, mas se tivesse concentrado mais na figura do filho, e não do pai, entenderia que sua luta estaria destinada ao fracasso perpétuo. Todos os símbolos estão lá, desde os primeiros instantes da trama aos últimos, e se você falhou miseravelmente em percebê-los, não se preocupe: para este tipo de distração serve a cena “final” do Super-Homem no filme, digna de ser retratada por um dos evangelistas…!

Apedrejem se quiserem, propaguem se justa a causa: de uma forma ou outra, o filme merece cada grama de sucesso (e de “dinheiros”) que conquistar durante sua exibição ao redor do planeta…

Falem bem, falem mal – mas não deixem de ler nosso jornal! E não deixem o heroísmo morrer, caríssim@s… Até a próxima! ;D

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