IFConnect > Narrativa > Cúmplice do Universo

Caio acordou, abriu seus olhos azuis turquesa, visualizou as constelações presentes no teto de seu quarto – uma pessoa apaixonada pelo espaço, o mínimo a se esperar, é representar essa paixão por meio da criatividade – levantou-se, ao se ver frente ao espelho do banheiro, imaginou o quanto sua vida poderia ter sido diferente, caso, naquela noite fatídica, ele não tivesse se acovardado com os acontecimentos.

Na festa, Caio observou a distância a linda garota, cabelos castanhos, sorriso contagiante e olhos encantadores. Luíza, esse era o nome daquela elegante mulher que iria mudar toda sua história. Caminhou até ela e, aproximando-se, percebeu em seus olhos uma escuridão, via-se a tristeza estampada no rosto da bela jovem.

No decorrer da noite, um homem chegou até a mulher, esta com um olhar de pavor o encarava, discutiram e o homem foi embora. O que estava acontecendo ninguém sabia, senão o jovem casal. Ao ser questionada sobre o ocorrido, discorreu sobre a história do conturbado relacionamento com o homem ao qual todos ora haviam sido apresentados. A mulher era frequentemente agredida física e verbalmente por seu companheiro.

A noite caía, as estrelas do céu iluminavam as escuras ruas da cidade. À frente das grandes portas de vidro do salão, no qual a festa ocorria, o estranho homem voltara – Caio percebeu, porém nada fez – entrou novamente no local, sacou uma pistola, mirando em Luíza. Toda a sua vida passou por diante de seus olhos. Diante dos de Caio, o único que lhe ocorria era o sentimento de culpa, agora o que faria ele? A dúvida pairava em seus pensamentos, tentaria ele parar a ceifa de vidas prestes a acontecer em sua face?

Num momento, provavelmente de desespero e lucidez, o rapaz saiu a correr pela porta do salão, em seguida, apenas ouviu um estrondo vindo de lá. Ó, quão infeliz é a vida, aquele que apaixonado pelas estrelas era, por elas foi traído, o universo conspirara contra ele, para sempre será lembrado como cúmplice de uma morte, a de sua própria irmã. Deixara seu sobrinho órfão, naquela noite que era apenas para comemorar a vida, sua mãe completara seu meio século. Talvez o tempo apague, talvez quando o universo o recolher para si, deixem de lembrá-lo como aquele que desistiu, que fracassou.

Todos os dias se sentia humilhado, não pelos outros, pela opinião que esses emitiam, mas sim por causa de seu auto julgamento, seu sentimento de culpa e de insignificância. O fardo que ele tinha de carregar era muito pesado, mais do que sua pobre mente poderia suportar. Então naquela mesma manhã, diante daquele mesmo espelho, ele pôs um fim ao seu sofrimento carnal, com uma lâmina de estilete a se cortar.  Seu fluido sangue escorria pelo braço e caía no alvo chão do banheiro, que agora se manchava com a escuridão vermelha que era sua vida. Logo percebeu que isso de nada adiantaria, pobre rapaz, mais uma vez enganado por seus impulsos, suas emoções. Tiraria sua vida, mas tudo que gerava sua dor, continuaria; o triste fato se tornara ainda mais doloroso. Arrependeu-se. Deu seu último suspiro e se despediu do universo que agora o levava para bem longe dali.

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