IFConnect > Série > Atenciosamente, eu > Carta aos doutorandos em Harvard

Caro leitor,

Sabe quando você acorda de manhã com aquela vontade de colocar aleatoriedades no seu currículo? Confesso que diversas vezes pretendi fazer pós-doutorado em Harvard; então, estou tão próximo do meu diploma, não é mesmo? Ninguém se incomodaria se colocasse que já o concluí, mesmo estando ainda cursando o Ensino Médio, porque é a intenção que conta. E digo mais, como a instituição em que estudo é de alto nível, mesmo para os padrões internacionais (grato, Instituto Federal), estou ainda mais próximo do tão sonhado diploma. Sei que pode parecer ignorância, mas porque não me beneficiar com um pequeno aumento da verdade (talvez possa até ser uma “inverdade”, mas afinal de contas, todo mundo conta mentiras de vez em quando, bah tchê), talvez ganhar premiações e a até a proposta de um filme sobre minha vida estrelado por umas das figuras mais ilustres do libertino maravilhoso cinema brasileiro, ou quem sabe até me tornar governador de um dos Estados mais falidos e importantes do país. Ou até mesmo me tornar o analfabeto presidente da república que recebeu diversos títulos de Doutor Honoris Causa, mesmo tendo participado de diversos “movimentos”, como o famoso Mensalão; e o triplex, hein, meu irmão!?. Eu sou a Doutora Joana D’Arc, o Excelentíssimo Wilson Witzel, o Ilustríssimo Luiz Inácio da Silva, eu sou todos aqueles que levam a vida no jeitinho brasileiro de ser, afinal de contas, somos assim, um misto de incongruências, de mentiras sobre mentiras. Ou talvez esse não seja o jeitinho brasileiro de se fazer as coisas, mas simplesmente o jeito humano. Sábio foi o teólogo Augustus Strong ao dizer que, “O homem é um vilão infame. É corrupto por natureza e posteriormente pela prática.”. Somos incapazes de produzir o bem, da mesma forma que não é possível colher um café especial de uma safra doente, também não é possível colher o bem de seres totalmente corrompidos pelo mal, desde o ventre. Essa onda de pessoas falsificando informações no currículo não é algo atual,há poucos anos, as pessoas diziam que eram fluentes em outras línguas, hoje em dia as técnicas apenas “evoluíram”. Até quando vamos viver de falsas aparências, de omissões da verdade? Provavelmente nada disso mudará, não se depender de nós, meros mortais, para que algo aconteça.

Atenciosamente, eu.

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