Atenciosamente, eu,  Série,  Visão do Autor

Carta aos censores

Caro leitor,

O Dicionário Michaelis dá a seguinte definição a palavra censura:

“Censura
cen·su·ra
Substantivo Feminino
1 Ação ou efeito de censurar.
2 Exame de trabalhos artísticos ou de material de caráter informativo, a fim de filtrar e proibir o que é inconveniente, do ponto de vista ideológico ou moral.”

É sabido que há séculos, grupos, governos, ideologias, instituições e tantos outros componentes da ordem social à qual pertencemos atuam com mão de ferro para barrar pensamentos que divergem do aceito por tal grupo.

Cito aqui alguns desses acontecimentos históricos, para posteriormente nesse texto, relatar a forma de censura que vemos ainda hoje, atuante em nossa sociedade.

Entre os anos de 1559 até quatro séculos depois, em 1948, existiu um índice de livros, artistas, pensadores, teólogos e demais grupos intelectuais, no qual estava listado todo o conteúdo censurado pela Igreja Romana, o Index Librorum Prohibitorum. Quem consumisse esses conteúdos poderiam ser julgados como hereges e ser perseguidos e condenados pela inquisição, podendo ser excomungados, ou até mesmo mortos. Isso é censura.

Em 1933, o Partido Nazista e seus apoiadores promoveram queimas de livros em Praça Pública. Todo filósofo, escritor, poeta, sociólogo, entre outros que escrevessem conteúdos que o Partido considerasse contra seus ideais tiveram seus exemplares queimados, e passaram a ser perseguidos como inimigos da pátria. Albert Einstein teve seus livros queimados, o motivo: era judeu. Isso é censura.

Seguindo os moldes alemães, entre 1937 e 1945, Getúlio Vargas reinou com poderes absolutos, entre esses poderes, encontrava-se o controle da imprensa e da propaganda, e repressão à oposição. Tivemos até mesmo campos de concentração, comandados por Filinto Müller, simpatizante declarado do nazismo. Graciliano Ramos, um dos maiores nomes da literatura brasileira foi preso por se opor a Getúlio, e suas memórias estão registradas em seu livro “Memórias do Cárcere”. Graciliano Ramos sobreviveu, Olga Benário não teve a mesma sorte ao ser enviada pelo governo brasileiro para campos de concentração na Alemanha nazista. Morreu, e entrou para a história. Isso é censura.

Em 1966, Mao Tsé-tung iniciou um projeto de revolução cultural da China. A ideia era criar padrões sobre o que seria uma cultura aceitável, sobre quais conteúdos agradavam o governo, em contrapartida, todos os que não se enquadravam nesses padrões eram perseguidos, a fim de criar uma hegemonia de pensamentos,  evitando assim que contra-revoluções partindo da oposição acontecessem. Taiwan foi fundada por fugitivos do governo continental, que saíram do país para evitar a morte. Isso é censura.

Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu um de seus momentos mais sombrios, a Ditadura Militar. Durante todo o período, todo aquele que fosse suspeito de ser contra o governo era perseguido, torturado, e muitos até mesmo mortos. Várias músicas símbolos do MPB foram compostas como forma de denúncias veladas a tudo o que acontecia nos bastidores desse tenebroso período. A música “Cálice (Cale-se)” de Chico Buarque e Milton Nascimento com certeza é, e continuará sendo um marco da resistência cultural desse período. Os dois cantores sobreviveram, porém essa não foi a realidade para muitos que perderam suas vidas vítimas da mordaça, vítimas do AI-5. Isso é censura.

Em dezenas de países, ainda hoje, pessoas são perseguidas, livros são queimados, opositores são reprimidos e o diferente é rechaçado. China, Coreia do Norte, Vietnã, Eritreia, Arábia Saudita, Venezuela, Irã, e tantos outros. Isso é censura.
É triste pensar que ainda hoje, em 2020, pessoas sejam reprimidas por terem ideias opostas a determinado grupo, infelizmente, essa não é uma realidade desconexa ao que o Brasil vive.

Constantemente vemos determinado grupo (que não citarei qual, devido a caso de censura recente que passamos) atacando a mídia, taxando-a de mentirosa, ameaçando acabar com os poderes institucionais do país, e com qualquer mídia que ouse discordar dos posicionamentos desse grupo. Ameaçam ainda a criação, ou melhor, o restabelecimento, de uma das maiores ferramentas de censura que nosso país já presenciou, o Ato Institucional 5, um decreto ditatorial e que institucionaliza a censura. Ameaçam opositores. Denunciam um poema de humor cítrico sobre os acontecimentos envolvendo tal grupo, simplesmente por este não lhes agradar. Dizem que, “conhecendo a verdade, a verdade libertará”, mas a verdade só será aceita se for boa para os supracitados. Isso é censura.

Tentam calar nossas vozes, mas enquanto houver motivo para lutar, continuarei a entoar em alto e bom tom: “NÃO À CENSURA”.

Essa não é uma luta pelo próprio direito de fala, mas sim pelo direito de todos expressarem-se livremente, sem amarras, sem filtros, sem medo. Enquanto escrevo nesse blog, pessoas ao redor do mundo estão morrendo por perseguição política. Até quando isso vai continuar? Até quando vamos aceitar?

Não podemos tolerar que isso continue acontecendo. Ameaças não são liberdade de expressão. Defender censura não é liberdade de expressão. Para que não haja censura, devemos combater os censores, não com violência, mas com conhecimento, porque este sim liberta.


Convido você, caro leitor, a não se intimidar por tais posturas ditatoriais, não se calar perante esses grupos, porque se o fizer, quando quiser falar, poderá ser tarde demais.

Atenciosamente, eu.

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"Ou escreves algo que valha a pena ler, ou fazes algo acerca do qual valha a pena escrever." Benjamin Franklin

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