Desromantização das Relações: a Família

Consoante ao pensamento de Claude Lévi-Strauss, a interpretação adequada do coletivo ocorre por meio do entendimento das forças que constituem a sociedade, como os eventos históricos e as relações sociais. Esse panorama auxilia a compreender que a história da humanidade esclarece muitos dos estigmas até hoje fortemente presentes na vida hodierna. Passamos por tantas periodizações que ainda mostra-se irregular e lábil a suposta trajetória pela qual tenhamos caminhado, todavia, dificilmente tais acontecimentos poderão ser refutados: o início do processo de civilização e sedentarização desencadeia a quebra do matricentrismo – cultuava-se a dádiva da gênese humana suscitada pela mulher, antes da racionalização do processo – e de certa igualdade vividos pelas primeiras formações grupais, originando, pois, o patriarcalismo que persiste na contemporaneidade, como explica Peter Stearns. Obviamente, poucas não são as populações em que o papel feminino teve tão ou mais destaque do que o masculino na formação da nação. Um grande exemplo disso – e historicamente recente – é a reestruturação do Paraguai: após a Guerra do Paraguai, o país sofreu um colapso populacional, grande parte do contingente que resistira foi majoritariamente representado por mulheres e crianças (dados apontam até 75% de todos os homens paraguaios em idade reprodutiva tenham morrido na famigerada guerra); as caracterizações de uma sociedade embasada na representação feminina ainda são evidentes no país, mesmo com políticas paradigmáticas não tão favoráveis àquelas que por anos lutaram para reerguê-lo. É válido ainda mencionar o poder delas na História Africana, como a atuação da expoente Njinga a Mbande e das guerreiras de resistência à dominação imperialista, como as antinômicas Minos, as quais lutaram como amazonas até o fim do século XIX.

Partindo da ambientação, o cotidiano remete-nos ao tribal: a necessidade da formação familiar é, sim, uma marca do primitivo. Em Esparta, agremiação ultramilitarizada pertencente ao Período Arcaico da Grécia Antiga, as crianças do sexo masculino a partir de determinada idade passava a ter sua guarda a cargo do Estado, o qual ainda na tenra idade do infante designava suas aptidões – senão o próprio destino. Milhares de anos no passado, a polis grega, membro da Liga de Delos, já apresentava uma estrutura social mais avançada do que temos hoje, embora questionável quanto ao fato de apressadamente deliberar no futuro dos juvenis; à guisa de Gilberto Freyre, o ornamento da vida está na forma como um país – ou nação, termo mais apropriado para a cidade-Estado espartana – trata suas crianças. Indubitavelmente, a família é um marco histórico que denota ao ultrapassado e isso deve ser visto sem romantismo, permitindo-se observar além das máximas ortodoxas, como o próprio endeusamento da infância – também historicamente recente, aludindo-se a obra “História Social da Infância e da Família” de Philippe Ariès, o qual explana que, durante a Idade Mediévica, a criança era vista como um adulto em miniatura, exercendo quase todas as funções de um indivíduo na fase madura, bem diferente da visão puritana atual.

Destarte como em uma tóxica relação abusiva entre cônjuges, a família possui igual poder de flagelar e corromper a saúde psicológica, mental e física de um indivíduo, conquanto que somente este último parece de alguma forma comover a sociedade. Estudos apontam o que é do conhecimento popular: famílias bem estruturadas possuem filhos com menores índices de desvios psicossociais, menores tendências a comportamentos de personalidade antissocial – como cometer delitos e ataques de violência – e, ainda, que melhor possuem desempenho acadêmico. Estatisticamente, no Brasil, grande parte dos jovens do Ensino Médio das escolas públicas são provindos de famílias monoparentais ou de pais divorciados/separados, contudo, em maior percentual, estudantes de níveis superiores e pós-graduação possuem suas condições familiares compostas por pais casados, o que corrobora a intrínseca atuação da entidade familiar na esfera social como um todo. Ainda: o simples fato de pais serem divorciados em países tradicionalíssimos como o Japão já é uma variável que pode influir tanto em julgamentos previamente concebidos como também em diferença de tratamentos – sem contar que, no país supramencionado, as filhas de mulheres que se casam novamente têm seu sobrenome igualmente mudados para o sobrenome do novo cônjuge da mãe, o que, em uma visão ocidental do assunto, pode ser classificado como um alteração drástica e falocêntrica, mais uma vez afetando a formação psicossocial da criança, o que pode acarretar um susceptível quadro de desvio de identidade social no decorrer do amadurecimento e mitigando a individualidade, destoante à autonomia definida pelo filósofo Immanuel Kant, o qual a associa com a liberdade, além de progressão da minoridade, servindo-se de seu próprios entendimentos.

Os argumentos contrários à formação da família – pelo menos a contemporânea – são variados, mas não se deve esquecer o status quo que grande parte dessas formações buscam manter: o controle e dominação dos filhos. Pais – em especial, as mães – dominadores são os principais acusados de perpetuar chagas sociais. A cobrança de resultados irreais e perniciosos é a nova moda, tendo a lógica foucaultiana de “vigiar e punir” empregada indiscriminadamente, porém, é mister lembrar outras pequenas atitudes rotineiras que gradualmente degradam a entidade do ser, como as chantagens emocionais, a dramatização – novamente falando mormente das mães – que perturbam e desnorteiam os filhos, e, o mais danoso, a culpabilidade de ações sendo transferida a eles, o que, fatidicamente, suscita a inversão desse processo na chegada da adolescência, posto que, embebecido pela filosofia moderna, à égide de David Hume, filósofo escocês do século XVIII, a concepção de mundo é formada através dos hábitos, isto é, do meio e das interações sociais que os indivíduos experienciam. Acresce-se ainda a psicologia histórico-cultural de Vygotsky, a qual corrobora com Hume, e arragai-se, pois, com a sociologia das desigualdades de Bourdieu, este ainda definindo que o “habitus” seria os princípios geradores de práticas distintas e distintivas internalizadas pelos indivíduos por causa das estruturas sociais as quais eles vivenciaram. Não é raro encontrar mães gritando com bebês de alguns meses, estressando-os, demonstrando, decerto, um desequilíbrio emocional cada vez mais presente entre as novas gerações – e cada vez mais despreparadas para a maternidade compulsória (que não será abordada no artigo, entretanto, salienta-se que tal fator é um dos perpetuadores da família), mesmo tendo uma “nova melhor” tendência de comportamento europeia para os pais para com seus filhos a cada semana.

Nesse ínterim, não obstante o ser humano ser um animal social, o qual necessita da vivência em comunidade e estabelecer vínculos interpessoais, intitulado sob a perspectiva aristotélica, não há como ignorar mais as truculências na família, suas consequências e as diligências intervencionistas que urgem ser realizadas para contornar a situação secular. A desromantização é a iniciativa primaz para que possa a estrutura ser julgada verossimilhantemente, sendo primordial que isso ocorra, pois, parafraseando Oscar Wilde, o primeiro passo é o mais importante na evolução de um homem ou sociedade. Outrossim, compete analisar não piamente a priori, estudá-la como propunha Durkheim, sabendo diferenciar o cientista social da própria entidade que também compõe a sociedade. Ainda, manejar vias que melhor ajam na empreitada contra esse fato patológico, encarregando-se de prosseguir com a desmitificação dessa organização política – afinal, como disse Foucault, tudo é politizável – que sorrateiramente emana uma falsa sensação de ruptura com as modernas ilustrações, como as famílias formadas por parentais não tradicionais, vide o Movimento Queer. Ao compararmos filósofos da Era Absolutista e Renascentista, é passível de compreensão que a figura do Leviatã de Hobbes – mas primeiramente consubstanciado nos contos bíblicos – pode ser representada pela própria família, sendo ela, então, o “lobo do homem”, ademais, uma comunidade sem as configurações de uma rígida estrutura familial seria, de fato, a mais próxima realidade imaginada por Morus em Utopia – independente das reais intenções dos autores com seus respectivos livros.

Andy Bacha.

3 comentários

  • É triste dizer isso, mas temo que parte da nossa nação ainda se cegará por causa do que lhe é sagrado, e continuaremos a ter mais gerações repetindo o mesmo erro, e romantizando em vez de analisar.

  • Gustavo Garcia Rezende

    Seria cômico imaginar uma sociedade onde a família é apenas família e não a grande influenciadora e criadora de diversos conceitos e ideias… Poderíamos assim, então dizer, ser um fato irrefutável, que a família não cria preceitos, mas deixa os nascer por si só.

  • São argumentos bem válidos com as palavras sabiamente escolhidas.

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