IV- A Vítima e Sua Utópica Lágrima

PARTE IV

Pedindo desculpas, aproximei-me dela que não estranhou, pois ainda era o seu irmão. Em um momento estava em frente de seu corpo, porém no outro em suas costas com o objeto em seu pescoço dando-lhe ordens.

Com cuidado para não cortar-lhe o pescoço, ajudei-a a dar alguns nós em um lençol de casal e fiz com que amarrasse na janela ao lado da sua cama. Após tudo estar pronto, tirei o objeto de seu pescoço e a empurrei, e como era o normal, ela caiu e olhava para mim esticando as mão rumo ao lençol. Tentava levantar o corpo com os braços para não se enforcar, mas de nada adiantava, pois não tinha forças e pedia me socorro com gritos, berros sufocados pela sua falta de ar. Dessa maneira virei as costas à situação e fui aos meus aposentos dormir, sabendo que agora quase tudo estava correto.

Ao notar o acontecido no dia seguinte, papai notificou a polícia e as investigações começaram. Os médicos que avaliaram e os oficiais nada encontravam que trouxesse outra ideia além de suicídio. Não havia marcas de navalha no corpo o que para mim era um alívio. Meu pai chorava agora, mas esquecia o acontecido graças à doença relembrando minutos depois com ainda mais pesar.

Passaram meses atrás de qualquer pista que levantasse alguma suspeita que contrariasse a ideia de suicídio, mas tudo sem sucesso. Agora eu já sabia exatamente como devolveria a meu pai toda tristeza que ele me causara enquanto casado com Íris.

Convidei o vizinho para almoçar em casa no domingo. Quando ele entrou, tranquei a porta e o levei à cozinha onde estava meu pai me esperando para comer. Fui a meu quarto e peguei quatro pares de algemas e uma arma, comprara de policiais não muito confiáveis que havia conhecido. Ao descer, os dois já estavam sentados, apontei a arma para meu vizinho, entreguei-lhe as algemas e mandei que colocasse nos pés e mão de meu pai e depois nos seus. Com grande pavor nos olhos, meu pai e o meu vizinho Cláudio encaravam-me querendo gritar, mas havia dito que os mataria se o fizessem.

Há algum tempo Cláudio matara meu gato e dissera ser um acidente, pois vingar-me-ia do meu pai e dele ao mesmo tempo. Meu pai ficara seis meses casado com Íris me fazendo adentrar no sofrimento mais obscuro que já vi. Com Cláudio, essa seria a quarta pessoa que matava, uma para cada mês, eu contaria a papai a morte de uma por uma antes de completar o quinto mês com ele.

Após lembrar o assassinato do meu gato e amordaçar a boca do meu pai, para que não gritasse, furei a garganta de Cláudio fingindo tropeçar nos pés da cadeira. Papai olhava-me com tal terror que nada podia fazer a não ser sorrir, pois havia voado sangue em quase toda a cozinha e meu rosto estava todo respingado de vermelho.

Quando terminei com Cláudio, sentei-me com meu pai e contei-lhe contra vontade cada detalhe de cada uma das mortes e o porquê. Ele me perguntara o que havia criado e o que havia feito, mas eu me neguei a responder, enfiando-lhe a faca seis vezes, matando-o.

Ainda devendo um ano à minha “causa” sentia-me muito bem. Agora todos problemas haviam acabado. Deitei em minha cama e a casa parecia novamente grande e confortável. Agora podia ver novamente o brilho no cristal dos lustres. Então levantei-me para terminar o que havia começado. Na garagem, peguei um galão e o levei ao quarto. Derramei todo seu conteúdo em minha cama. Já na cozinha peguei uma caixa de fósforo e voltei a minha cama.

Olhando para cima agora sentia que havia me perdido no dia em que minha mãe morrera. Talvez eu fosse um monstro, mas esses pensamentos eram barrados pelo lado mais obscuro, pois agora todo o lado bom se esvaecera. Acendi um fósforo e, ainda olhando para o lustre, senti o calor na cama, não havia em mim vontade alguma de gritar, embora sentisse lentamente uma lágrima descendo pela minha face. Após tal momento, eu ri, e ria tanto que ficava sem ar, queimando aos poucos, meu risos logo transformaram-se em gritos em dor. Eu havia terminado o ciclo dos seis anos e perdido apenas todo o meu lado bom; com isso, veria mamãe novamente.

Agora peço novamente ajuda, estou preso… Sou uma vítima assim como você… Vítima de simples pensamentos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *