I- A Vítima e Sua Utópica Lágrima

PARTE I

Solicito-lhes grandiosa atenção à adjacente história aqui situada, a qual está a atazanar meu sono desde os primórdios de minha “maturidade”. Nutro tal “devaneio”, o qual não creio provir de peripécias ou fantasias, mas de incidentes recorrentes. A parte que lhes escreve é o sucinto lado do meu âmago, que suplica isenção da venda obscura que o cobre. Esta é, sem dúvida, a última diligência, a qual esgotará todo meu fulgor. 

Enquanto ainda em meus tempos infantis, era lépido e cheio do que costumam chamar de vida. Morávamos meu irmão, minha mãe, meu pai, minha irmã e eu. A casa era suntuosa e ilustre, cujas portas e janelas eram feitas de madeira e o chão escuro era forrado com tapetes felpudos.

Mamãe faleceu pouco tempo depois, na minha juventude, deixando um vazio na casa e na poltrona da sala de estar, de onde até as almofadas foram retiradas. Morrera de uma doença, a qual papai negara saber. Após seu enterro, papai tratara de arrumar nova mulher, como camisas em cabides, e casara-se com ela, prometendo-lhe tudo que já havia dito à outra, porém sem nenhum remorso ao fazê-lo.

A rotina da casa não havia alterado, meses após o óbito, um estranho não desconfiaria que houvera ali, outrora, uma mulher diferente da agora presente na casa. Porém, eu já não era um estranho e também não havia em mim a inocência de minha irmãzinha, cuja felicidade era de saber que enquanto sua mãe “dormia” havia ganhado uma nova.

Eu e meu irmão já nos preparávamos para assumir os negócios de papai no futuro, porém meu irmão não pretendia seguir tal carreira, preferindo viver às custas dos outros, usando suas drogas e companhias que variavam desde a classe social até o gênero. Já eu passava boa parte dos meus dias estudando na ampla biblioteca presente em minha casa .

Dessa maneira passaram-se seis meses e nada havia saído do normal, aparentemente. Uma tristeza e frieza enorme crescera dentro de mim, revelando ter potencial destrutivo quando incomodada. Tal tristeza não descendia apenas da ausência de minha mãe, mas também do total descaso de meu pai; inocência de minha irmã; até do desleixo do meu irmão.

Na última semana, um vizinho matara o gato que residia conosco, dizendo ter sido acidente após apedrejá-lo, causando em mim tremendo furor, pois o gato era o único na casa que me acariciava enquanto falava-lhe os problemas. Havia, de algum modo, crescido em minha mente uma vontade de vingar-me.

No dia seguinte, a mulher que substituíra minha mãe, Íris,  limparia a casa, começando pelo porão, local onde  habitavam ratos e morcegos, era grande, porém sem saídas e entradas de ar, o que o tornava extremamente quente. No mesmo dia, iríamos viajar a trabalho com nosso pai; nossa irmã iria de intrometida, só voltaríamos no começo do mês seguinte, o que levaria duas semanas. Íris ficaria em casa, pois não possuía motivos plausíveis para participar de tal viagem.

Já não havendo o que fazer,  visto que havia terminado minhas malas, vinham a meu encontro pensamentos que eram por mim venerados. Minha mente havia por si só planejado algo que já solucionaria um dos problemas que me importunara por muito tempo.

Tendo Íris acordado, arrumado a mesa do café e iniciado a limpeza da casa, tomamos o desjejum e saímos para a viagem já toda planejada por nosso pai, homem extremamente calculista e prevenido.

A viagem ocorrera, como era de se esperar, perfeitamente, pois havia sido meu pai que a planejara. Voltamos já no segundo dia do mês seguinte, sem meu pai, o que fazia parte de seu planos, mas que negara contar-nos antes, pois quereríamos também ficar em viagem, porém por motivos diferentes já que ele trabalharia.

Chegamos em casa e cada um foi para seus afazeres, resolvendo suas particularidades. Íris não se encontrava, mas imaginavam estar com alguma amiga, pois sentira-se sozinha na casa que estava, outrora, vazia.

No dia seguinte, papai chegara de viagem e percebera que Íris não estava em casa e foi à sua procura pela cidade. O dia passara e não a encontrara, comunicando-nos do desaparecimento da sua esposa e dizendo ter contatado a polícia, mas não dispensando nossa ajuda na procura.

Sendo assim, colocamo-nos a procurar a madrasta que havia sumido entre as duas semanas que viajamos, porém a polícia logo chegou e assumiu a busca por pistas em nossa residência. Após duas horas de procura, momentos em que ficamos na sala, sentados esperando, encontraram algo. Em mim não havia curiosidade, mas a via nos olhos de todos a meu redor.

Ainda NÃO ARREMATEI este quase diário pessoal, quero, portanto, encontrar-me em mim mesmo novamente.

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