Olimpíada representativa

Eu amo qualquer tipo de manifestação esportiva. Na verdade, isso não é novidade pra ninguém. Admiro muito toda e qualquer modalidade. Aliás, como falar de esporte sem pensar nas competições que ele promove? Em todo lugar, há competições de todos os níveis, seja de qualidade ou de prestígio. Quer nível maior de qualidade e prestígio do que os que as Olimpíadas possuem? Claro que além de prestígio, elas têm muito alcance, tanto de atletas quanto de público.

Creio que a maioria das pessoas esteja ciente de que o Brasil está a sediar tal evento esse ano. A abertura das Olimpíadas foi realmente bonita e emocionante, para não dizer surpreendente. Como o país sempre teve uma grande tendência de mascarar diversas características próprias para encaixar-se no padrão europeu e estadunidense, não era esperado que retratassem a nossa cultura e a favela como retrataram (ouvi falar que estrangeiros clamavam pela expressão efetiva da nossa cultura. Se isso foi feito para agradá-los? Não sei. Não problematizei até esse ponto, mesmo que eu adore fazer isso. Fica no ar). Realmente, uma obra de arte. Mas minha atenção e a de muitos não foi tomada apenas por isso, mas sim, pela representatividade que essa Olimpíada carrega.

Os jogos estão realmente bons. O Brasil estreou alguns atletas, para que ganhem experiência, portanto, alguns resultados negativos são completamente aceitáveis. Sabe o que realmente importa? O modo como a influência olímpica está sendo usada para desconstrução de diversos pré-conceitos, direta ou indiretamente, dentro ou fora de quadra.

Os exemplos começam na abertura. Além da representação de um Brasil cultural e genuinamente alegre (o que nada tem a ver com baderna, como foi demonstrado), um dos detalhes que é minucioso, mas deveras importante, foi a delegação brasileira ser conduzida por uma mulher transexual. Claramente, não é necessário estar no padrão de gênero imposto pela sociedade para ser alguém respeitado a ponto de conduzir seu país numa abertura desse porte. Além disso, a entrada que encantou a todos que a assistiam foi a de nossa conterrânea, Gisele Bündchen. Por que ela seria tão relevante assim?

Simples: a visão da mulher brasileira é muito deturpada, principalmente em outros países. Mulher brasileira é o quê? Corpulenta, sedutora, insinuante… A vida se resume em ser “gostosa”. Não tem vez nem voz, e parece contente com isso. Bom, não mesmo. Aquela entrada mostrou que a mulher brasileira pode ser quem ela quiser, não apenas o estereótipo que lhe cabe no estrangeiro. Ela pode ser sedutora e corpulenta, bem como também inteligente, bem sucedida e ambiciosa em seus sonhos e objetivos. Pode ser alguém elegante, segura e saudável, no estilo “entrada da Gisele”, com suas próprias características físicas e psicológicas.

A participação feminina não para por aí. Convenhamos, que show! As seleções femininas estão mostrando muito talento, tanto nos esportes coletivos quanto nos individuais. A primeira medalha de ouro brasileira foi conquistada por Rafaela, uma judoca de origem humilde cujo talento é fruto de muito esforço e superação. Ela venceu todo o preconceito e agressões que sofreu na edição passada dos jogos e deu a volta por cima. Mostrou a força da mulher brasileira, negra e pobre que saiu das ruas e fez um futuro pra lá de glorioso. Recentemente, outra brasileira ganhou uma medalha de bronze no judô. Nas outras categorias femininas, há a promessa de, se não a conquista de medalhas, uma bela participação.

Não posso deixar de falar do destaque e da denúncia que o futebol despertou. Obviamente, a nossa seleção feminina de futebol é muito menos prestigiada e divulgada na mídia, no entanto, existe e conta com craques que conquistam vitórias e espaço no cenário esportivo do nosso país. Não entrarei no mérito das comparações com o futebol masculino, mas a sequência de resultados negativos que tal seleção vinha demonstrando levou-me à reflexão. Sabe quanto essas mulheres (que jogam a mesma modalidade que os homens da seleção) ganham? Acredite, bem menos. Ah, e um detalhe: com muito mais saldo de gols. Marta está aí pra provar. Nada disso que foi retratado pode passar em branco.

Representatividade é importante, galera. Quando nenhum desses problemas é denunciado, nós nos esquecemos deles. Tudo parece ter maior gravidade do que a discriminação de gênero, raça e condição social. Absolutamente tudo. O pensamento egoísta e individual não é cabível num país tão amigável e solidário como o nosso. A diferença que você anseia fazer nas urnas deve ser uma preocupação em todos os âmbitos. Você não é pequeno demais pra problematizar: é grande demais pra se calar.

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