IFConnect > Série > 15 Cartas Sobre Você > 15 Cartas Sobre Você: Carta Um

Sentada na cadeira de madeira marrom escura, acolchoada, a mulher ignorou o som do disco que tornava a tocar na vitrola. Na verdade, ela até gostava, fazia com que os sentimentos fluíssem de forma, talvez, mais reconfortante e livre dentro dela.

Permitiu que a caneta deslizasse por entre seus dedos e sua ponta tocasse a folha de tom já amarelado, tornando a cena vintage, a seu ver, até que meros rabiscos começassem a virar palavras, talvez não tão doces como deveriam ser, no entanto vinham de dentro dela, eram os sentimentos presos em sua alma, em uma turbulenta luta com suas memórias, nem tão distantes como pareciam ser.

Respirou fundo e deixou que o vinho tocasse seus lábios, a explosão de sabores tomando seu paladar, sim, era mais uma coisa que fazia parecer que ele estava ali. Com certeza, estaria ouvindo alguma música dos Beatles , ou estaria na cozinha preparando o jantar para evitar que ela ateasse fogo na casa.

Sim, tudo fazia com que a mulher se lembrasse dele. E foi assim que surgiu sua primeira carta sobre… Ele.

 Vancouver, 22 de março de 2018

Olá, 15,

Sinto muito pela forma como soa irônico o fato de eu não conseguir pronunciar seu nome, afinal eu adorava como ele soava aos meus ouvidos ou como combinava perfeitamente com você. No entanto, seu nome agora me machuca, 15, você como um todo me machucou, mas antes que eu possa falar sobre como você partiu ou sobre os motivos que me deu quando saiu por aquela porta, vamos conversar sobre como toda essa coisa que um dia chamamos de relacionamento soou perante meus olhos.

Lembro-me de como chovia forte naquela noite de março e de como caminhei sobre um enorme guarda-chuva preto até chegar naquele bar na parte leste de Vancouver. Antes mesmo que eu passasse pela porta, era possível ouvir o som das risadas das garotas, ou a voz de alguns homens que bravejavam quando alguma partida de sinuca supostamente lhes era roubada, e então eu entrei, 15, mas você em momento algum se virou em minha direção, optou por manter os olhos fixos no copo de whisky a sua frente, parecia imerso demais em seus pensamentos (afinal eles te enlouquecem às vezes, não é mesmo?). Você simplesmente ficou lá, a noite toda, não me olhou como todos os outros homens ali presentes, não agiu como se eu fosse uma garçonete bonita em um vestido branco e vermelho, não me engoliu com os olhos como se eu não passasse de um mero pedaço de carne, uma presa fácil. E eu, por vez, gostei de como passava as mãos hora ou outra pelos fios de cabelo, ou como as madeixas douradas de seu cabelo ficavam abaixo da nuca; no entanto, gostei ainda mais, quando, naquela noite, com o bar prestes a fechar, tive a oportunidade de me sentar ao seu lado no balcão.

Sua voz rouca e ao mesmo tempo doce sempre disse muito sobre você, 15, o brilho vazio dos seus olhos também, eles mostravam quanta coisa carregava dentro de si; demorei certo tempo para começar a compreender os oceanos que lhe habitavam, até que mergulhei neles com você.

Naquela noite, descobri seu nome e o que te incomodava, afinal, seu copo de whisky ainda estava cheio quando saímos, você sequer havia o levado a boca, estava focado demais nos problemas que atormentavam sua família, e claro, te atingiam também, como um tiro pelas costas. Mas creio que não vá querer relembrar essa parte, afinal algumas de suas feridas nunca se fecharam, essa é uma delas.

Você me acompanhou até em casa, me deixou na porta e após um breve “até”, se virou e foi embora. Em momento algum se aproximou demais, simplesmente se foi, e então, apenas observei sua silhueta, sob a luz amarela dos postes, com as mãos no bolso do casaco preto enquanto os grossos pingos de chuva molhavam seus cabelos, se afastar lentamente até que desaparecesse do meu ponto de visão.

Fechar os olhos naquela noite, e me render ao sono pareceu uma missão impossível, meus pensamentos me atormentaram, questionando-me se você estaria no bar no dia seguinte, ou se estaria melhor em relação a sua família, se havia parado para conversar com outra pessoa no caminho de volta para casa, ou se já estaria em sua cama com um livro em mãos. Foi engraçado como conseguiu me prender sem muito esforço. A verdade é que sempre, de alguma maneira, foi você, antes mesmo que algum de nós soubesse disso, era você a única pessoa que faria com que eu soubesse o real significado de amar, e de sofrer quando este amor em algum momento, acabasse.

Entretanto, nós também não sabíamos o quão tóxicos poderíamos ser um para o outro; doeu quando fizemos tal descoberta. Acho que nunca fomos bons com enigmas, nunca fomos bons para decifrar as entrelinhas, ou para enxergar o caos no qual estávamos nos afundando naquela chuvosa noite de março.

Com todo o meu amor, Grace.

Grace puxou com toda força o máximo de ar que seus pulmões conseguiram suportar. Era complicado para ela aceitar os fatos de que tudo aquilo que algum dia eles viveram havia chegado ao seu fim.

Caminhou na ponta dos pés até a vitrola, que ainda tocava, e finalmente a desligou, apoiou as mãos ao lado da estante e, por breves segundos, fechou os olhos, ignorando o aperto que se formava em seu peito, as lembranças que a faziam ficar tonta, ou o perfume do homem que de alguma forma ainda fazia parte daquela casa.

Apenas ficou ali, tentando manter a sanidade que ainda lhe restara.

Após longos minutos, caminhou a passos silenciosos até seu quarto, como se tentasse não acordar alguém, mas ela estava sozinha; lembrou- se deste fato quando ao deitar em sua cama observou o espaço vazio ao seu lado e o frio que ali havia se instalado.

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